Piscicultura do zero
Acabou de entrar na graduação e vai participar do GEMAq? Esta página explica, sem jargão, o básico da criação de peixes: o que é, por que o oeste do Paraná é tão forte nisso, como a tilápia é produzida e o vocabulário que você vai ouvir nos laboratórios.
O que é aquicultura e piscicultura?
Aquicultura é a criação de organismos aquáticos sob controle humano: peixes, camarões, ostras, rãs e algas. Piscicultura é a parte da aquicultura dedicada aos peixes. A diferença para a pesca é simples: na pesca o peixe é capturado na natureza; na piscicultura ele nasce, cresce e é colhido em um sistema manejado, como acontece com o frango ou o suíno.
A piscicultura é a atividade de produção animal que mais cresce no Brasil. O Paraná é o maior produtor de peixes de cultivo do país, e a maior parte vem do oeste do estado, a região de Toledo, Cascavel, Palotina, Nova Aurora, Marechal Cândido Rondon e arredores. Na linha do tempo você vê como isso aconteceu.
Por que a tilápia?
A tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) é um peixe de origem africana, trazido ao Brasil em 1971. É o peixe mais produzido no país porque:
- cresce rápido e aceita bem a ração;
- é resistente ao manejo e a variações da água;
- tem carne branca, sem espinhas em "Y" no filé, e sabor suave, o que agrada ao consumidor;
- reproduz-se com facilidade em cativeiro, garantindo oferta de filhotes o ano todo.
Ela é tropical: cresce melhor com a água entre 26 e 30 °C. No inverno do Paraná a água esfria, o peixe come menos e quase para de crescer. Por isso o calendário de produção da região é planejado conforme as estações.
A tilápia é uma espécie exótica (não nativa). Por isso, o GEMAq e outros grupos também estudam espécies nativas das bacias do Paraná e do Iguaçu, como o jundiá, o pacu, a piracanjuba e o surubim-do-iguaçu. Esse último foi o tema do doutorado do Prof. Aldi.
As etapas da produção
Reprodução
Os reprodutores (machos e fêmeas adultos selecionados) ficam em tanques próprios. Os ovos são recolhidos e incubados. O manejo e a nutrição dos reprodutores são uma das linhas de pesquisa do GEMAq.
Larvicultura e reversão sexual
Recém-saídas do ovo, as larvas são muito frágeis. Na tilápia, elas costumam receber por cerca de um mês uma ração com hormônio que faz quase todas se desenvolverem como machos, que crescem mais e não gastam energia se reproduzindo no viveiro. Essa etapa se chama reversão sexual.
Alevinagem
Os alevinos (filhotes) crescem até alguns gramas em ambiente controlado, num processo feito por empresas especializadas chamadas alevinocultoras.
Recria e engorda
Os juvenis vão para os viveiros ou tanques-rede, onde são alimentados até o peso de abate, normalmente perto de 1 kg. É a fase mais longa e a que mais consome ração.
Despesca e transporte
Despesca é a colheita dos peixes. Antes dela o peixe fica em jejum. Depois é transportado vivo, em caminhões com caixas de água oxigenada, até o frigorífico.
Processamento
No frigorífico (abatedouro de pescado) o peixe vira filé, peixe inteiro e outros produtos. Pele, cabeça, carcaça e escamas viram farinha, óleo, colágeno e outros coprodutos. A agregação de valor ao pescado é outro tema forte do grupo: uma doutoranda da Unioeste chegou a criar um sorvete à base de tilápia, premiado em 2022.
Sistemas de criação
Viveiro escavado
Um "açude" cavado na terra, abastecido por água de rio, nascente ou poço. É o sistema mais comum no oeste do Paraná. Muitos têm aeradores, máquinas que colocam oxigênio na água e permitem criar mais peixes por área.
Tanque-rede
Gaiolas flutuantes de tela instaladas em grandes reservatórios, como o de Itaipu. A água circula livremente. Para usar águas públicas é preciso autorização federal.
Recirculação e bioflocos
Sistemas intensivos em tanques, que filtram e reaproveitam a água (recirculação, ou RAS) ou mantêm microrganismos que tratam a água (bioflocos). Gastam pouca água, mas exigem mais tecnologia e energia.
Ração e nutrição
A ração representa a maior parte do custo de produção. Por isso, nutrição de peixes é a área mais estudada pelo GEMAq: quanto de proteína, energia, vitaminas e minerais cada fase precisa (exigências nutricionais) e quais ingredientes podem ser usados (avaliação de alimentos).
- Ração extrusada: cozida sob pressão e expandida, ela boia. Assim o produtor vê o peixe comer e evita desperdício.
- Proteína bruta (PB): o percentual de proteína da ração. Filhotes precisam de rações mais proteicas que peixes adultos.
- Granulometria: o tamanho do grão da ração, que acompanha o tamanho da boca do peixe.
- Arraçoamento: quanto e quantas vezes por dia alimentar. Depende do peso dos peixes e da temperatura da água.
- Conversão alimentar (CA): quantos kg de ração são gastos para produzir 1 kg de peixe. Quanto menor, melhor. Na tilápia, bons resultados ficam na faixa de 1,3 a 1,6.
- Digestibilidade: quanto do alimento o peixe realmente aproveita. Um dos trabalhos mais citados do Prof. Aldi trata justamente disso.
Qualidade da água
O peixe vive, respira, come e excreta na mesma água. Se ela piora, ele adoece ou morre. Os parâmetros que você vai medir nas aulas práticas:
Oxigênio dissolvido
O mais crítico. Cai à noite e de madrugada, quando as algas param de produzir oxigênio. Em geral, o ideal é manter acima de 4 mg/L.
Temperatura
Controla o apetite e o crescimento. Para a tilápia, o ideal é entre 26 e 30 °C.
pH e alcalinidade
Medem a acidez e a estabilidade da água. A faixa adequada costuma ficar entre 6,5 e 8,5.
Amônia e nitrito
Vêm das fezes e da ração que sobra. Em excesso, são tóxicos.
Transparência
Medida com o disco de Secchi. Indica a quantidade de plâncton (algas) na água.
Efluentes
A água que sai da piscicultura leva nutrientes para rios e lagos. O trabalho mais citado do Prof. Aldi estuda exatamente esses efluentes.
Cooperativas, integração e extensão
No oeste do Paraná muitos piscicultores trabalham no sistema de integração. A cooperativa ou agroindústria fornece alevinos, ração e assistência técnica, e o produtor entrega à cooperativa o peixe pronto para o abate. Copacol e C.Vale têm frigoríficos de peixe na região, e a Lar anunciou o seu em Missal.
Há também produtores independentes, associações e pequenos agricultores familiares que vendem em feiras e para a alimentação escolar. A extensão é o trabalho da universidade de levar conhecimento e tecnologia até esses produtores e aprender com eles. É a marca da carreira do Prof. Aldi, em projetos com prefeituras como Toledo, Missal e Pato Bragado e no entorno dos reservatórios de Itaipu e Salto Caxias.
Glossário rápido
- Alevino
- Filhote de peixe, já com forma de adulto, usado para povoar viveiros.
- Biometria
- Pesagem e medição de uma amostra de peixes para acompanhar o crescimento e ajustar a ração.
- Biomassa
- Peso total de peixes em um viveiro ou tanque.
- Densidade de estocagem
- Quantos peixes (ou kg) por m² ou m³.
- Despesca
- Colheita dos peixes.
- Eviscerado
- Peixe sem vísceras, pronto para venda inteiro.
- Larvicultura
- Criação das larvas até virarem alevinos.
- Outorga
- Autorização do governo para usar água de rio ou poço.
- Povoamento
- Colocar os alevinos no viveiro.
- Rendimento de filé
- Percentual do peso do peixe que vira filé. Na tilápia fica em torno de um terço.
- RGP
- Registro Geral da Atividade Pesqueira, o cadastro oficial do aquicultor.
- Tanque-rede
- Gaiola flutuante instalada em reservatórios.
- Viveiro
- Tanque escavado na terra.
Perguntas de calouro
Preciso saber biologia ou química avançada para entrar no grupo?
Não. Você aprende na prática, acompanhando experimentos de mestrandos e doutorandos. Curiosidade e responsabilidade com os animais são o mais importante.
O que um aluno de iniciação científica faz no dia a dia?
Ajuda a alimentar os peixes, faz biometrias, mede a qualidade da água, prepara rações experimentais, coleta amostras e organiza dados em planilhas. Com o tempo, conduz o próprio experimento.
O que é Engenharia de Pesca e o que é o PREP?
Engenharia de Pesca é o curso de graduação da Unioeste Toledo, criado em 1996, que forma profissionais para a pesca e a aquicultura. Desde 2024 também há o curso de Tecnologia em Aquicultura. O PREP é a pós-graduação (mestrado e doutorado) em Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca.
Onde leio mais?
Comece pelo acervo de memória, depois pelos trabalhos mais citados dos professores do grupo: Prof. Aldi, Prof. Altevir, Prof. Fábio e Prof. Wilson. A revista Panorama da Aquicultura e o anuário da Peixe BR também são boas leituras.